Créditos: Leandro Pagliaro

Calma

Calma, porque os cães nunca passaram tanto tempo com seus humanos. E isso é bom.

Calma, porque sempre dá para encontrar abrigo na obra de Clarice Lispector e em frases como esta: "Ela acreditava em anjos e, porque acreditava, eles existiam. 

Calma, porque o isolamento tem gerado encontros valiosos. Inclusive com nós mesmos.

Calma, porque há um mundo imenso a desvendar, sem pousos ou decolagens. É só você mergulhar. 

Calma, porque, no escuro, sempre podem surgir iluminações.

Calma, porque tem dado saudade do que antes chegava a irritar. E saudade assim ensina a tolerar.

Calma, porque tem dado saudade do que nunca fez falta. E saudade assim ensina a valorizar.

Calma, porque nosso Estado-Maior agora é o emocional. Governe-se.

Calma, porque, mais do que nunca, seu corpo é a sua casa. Habite-se. 

Calma, porque, esquerda ou direita, já não importa. Nosso grupo agora é o mesmo: o de risco.

Calma, porque, perto daqui, tem uma mãe que assopra o machucado no joelho do filho e ajuda a espantar a dor. 

Calma, porque sempre dá para fechar os olhos, respirar fundo e ouvir os sons ao redor. Longe, perto, dentro. Escuta só.

Calma, porque os sonhos nunca foram tão vívidos e, se você observar bem, pode descobrir mensagens secretas neles.

Frases para guardar

"De vez em quando você precisa fazer uma pausa para visitar a si mesmo".
Audrey Giorgi

“Ele não sabia que era impossível. Foi lá e fez.”
Jean Cocteau

"Preocupação é imaginação no lugar errado."
Jim Fiebig

"Lembre-se: hoje é o dia de amanhã que tanto lhe preocupava ontem."
Dale Carnegie

“Guardar mágoa é tomar veneno e esperar que o outro morra.”
Declaração atribuída a uma série de personalidades como Buda, William Shakespeare e Albert Einstein

"Graças a Deus aprendi a viver apenas com o necessário."
Chico Xavier

"O único clamor da vida é por mais vida bem vivida."
Darcy Ribeiro

"Uma das grandes desvantagens de termos pressa é o tempo que nos faz perder."
G.K. Chesterton

“A vida é aquilo que acontece enquanto você está ocupado fazendo planos.”
John Lennon

"Torna-te quem tu és."
Friedrich Nietzsche

Poesia

Vizinhança

Perto daqui tem panela que bate

E menina que se joga nos braços do pai

 

Perto daqui tem cadeira-de-balanço

Que já não balança mais

 

Perto daqui tem

Rio enterrado no asfalto

E ônibus lotado de gente sem saída

 

Perto daqui tem um Cristo

De braços abertos

Distante de nós

 

Perto daqui tem uma tela

Que ninguém pinta

E um piano que ninguém toca

E um abacate podre no chão

 

Perto daqui tem um ninho vazio

Com penugem dentro

E um trem que apita

na panela de pressão

 

Perto daqui tem sapato

na porta do quarto

e pés enroscados

no colchão

 

Perto daqui tem alguém

Que escreve eu te amo,

Mas apaga,

Pelo sim ou pelo não

 

Perto daqui

Tem um amor que era de vidro e se quebrou

 

 E olhos que brilham no escuro

 

Perto daqui

Tem uma esperança de tudo se acabar

 

 Menos a vida

 

Perto daqui

Tem alguém que pede um tempo para pensar

 

 Mas não pensa

 

E um filho que quebra os primeiros ovos

 

 Mas não frita

 

Perto daqui

Tem algo que, se você contar, ninguém acredita

 

Perto daqui

Tem um telefone que toca

 toca

 toca

 

e ninguém atende

 

E um elevador que sempre enguiça

Ampulheta

Tempo que se tem

É por enquanto

 

Tempo que se almeja

É presunção

 

Tempo que se perde

É desperdício

 

Tempo que se cruza

É comunhão

 

Tempo que se arrasta

É sacrifício

 

Tempo que se pede

É negociação

 

Tempo que se doa

É recompensa

 

Tempo que se encerra

É não

Resoluções da Quarentena

Menos pressa

 Mais atenção

 

Menos cobrança

 Mais perdão

 

Menos ímpeto

 Mais expansão

 

Menos tarefa

 Mais missão

Geometria

É de dentro

Que se alcança 

O fundo


É de longe

Que se fita

O rumo


É no centro

Que se acerta

O prumo

Dia de Aniversário

Abre a janela

e deixa o sol entrar


Põe no teu rosto o teu melhor sorriso

E se lembra de aproveitar


O tempo

A vida

O frio na barriga

E esse dia que se repete

Uma vez por ano

até se esgotar

Dia de catar palavra-pedra

Lá no fundo do quintal

E esfregar uma na outra

só pra fazer faísca

Lampejo

Ímpeto

Frêmito

Vislumbre

Palavras fagulhas que fazem relampejar

Pois relampeje neste teu aniversário

E deixe o coração trovejar

Está ouvindo?

É a vida

Luminescências

A João Guimarães Rosa

Apressa-te a viver

Não em velocidade

Mas em significado

Mira o mais fundo de ti

E segue neste sentido

É lá que estás

e não onde te destinam

Alegra-te de estrelas

Como no Grande Sertão

E, se alguém disser impossível,

Cintila.

O menino no meio do redemoinho

Nasceu sem nome e sem sombra

Feito garrancho no papel

 

Um fio de gente

Neste emaranhado

de nós

Acreditava em novelo de lã

E em chumaço de algodão

Onde podia guardar

Em segurança

Seu miúdo coração

Nas noites de frio

Ele se aninhava ali

No mais escuro e quente de si

E se colocava para dormir

 

A manhã mais feliz da sua vida

Foi a do primeiro espreguiçar

Quando foi esticando os braços

Assim e assim e assim

E, quando viu, já estava lá

 

No cume da pitangueira mais alta

Rente ao sabiá laranjeira

Que o avô costumava alimentar

 

Em toda a vizinhança

E nas redondezas também

Nunca se viu um menino tão feliz assim

 

Talvez porque não tivesse sombra

Talvez porque conduzisse

Ele mesmo

Os próprios sonhos

 

Todos tão cheios de cores

 

Talvez porque um dia

- diante do espelho –

Tenha dito de si para si,

sem direito à contestação:

 

- Custe o que custar, serei sempre eu, do jeito que sou.

 

De dar nó em pingo d’ água na torneira do quintal

De enxugar gelo quando bem entendesse

 

Mesmo sem quê nem por quê

 

E de assoviar bem longe

Até o pulmão esvaziar

para encher de novo

inteiro

Feito o fole da festa de São João

 

E o menino foi indo

E foi vindo

Pela vida afora e adentro

Pleno de maestrias

 

 A de fazer dente de leite

E fogo de palha

E queda de braço

E giro de peão

E bola de sabão

E umas proezas só suas

 

Como a de subir pelas paredes

e de se encobrir de borboletas

quando ninguém estava vendo

 

E quando já não tinha mais nada para inventar

Lá pelos fins do entardecer

Cismava que era um redemoinho

Destes ligeiros do sertão

E girava na palma da própria mão

 

Um dia o menino cresceu

 

porque mesmo os meninos sem sombra crescem

 

e olha só no que deu:

 

Em mim,

Em você,

Em eu

 

Adulto com menino dentro

Doido para despertar

 

(Julho de 2018, depois de ver desenhos da minha filha Isadora e saber da frase do Tomás, meu caçula, aos 9 anos: “Quero ser quem sou”)

Rio-Lisboa

Um quarto vagou

Ao lado do meu

Na casa do Cosme Velho

Mas continua lotado de filha

Verdade que ela atravessou

Um Atlântico inteiro

Há exatos 3 dias

Verdade que nos despedimos

Os cinco

De máscara

Como se fosse natural

Uma despedida assim

Verdade que lágrimas escorreram

Por debaixo de panos negros

E que tiramos fotos 

Dois a dois 

Até que só restasse ela 

De costas

Em direção ao portão de embarque

Com sua mala de mão


Verdade também

Que ela continua aqui 

No quarto ao lado

Com seus desenhos

De mulheres-libélulas multicoloridas

subindo pelas paredes

E com uma tela inteira a pintar no chão

Verdade que seus passos firmes cruzam o corredor

Agora à noite

Madrugada já 

Solas dos pés descalços fincadas no chão

Com a força de quem segue em frente, mas fica

Nem longe

Nem perto

Mas dentro

Que é onde se está 

E se consolida